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Artigo de Sandra Correia—Preparados, para mais um ano?

Com o mês de setembro, regressam as rotinas: para os pais, o emprego, para os filhos, a Escola. O primeiro dia é, sempre, para as crianças e jovens, um dia de emoções: o reencontro com os amigos, o relato das aventuras vividas ao longo das férias, a curiosidade pelo novo horário, pelos novos professores. E os restantes longos dias do ano escolar? A Escola é o lugar para aprender e desenvolver competências, importarão as emoções? A empatia? Os afetos?

Neste contexto, falar de inteligência emocional pareceu-me um tema pertinente. Num mundo em constante movimento, cada vez mais global, as redes sociais dominam o nosso dia-a-dia, as nossas relações e as nossas profissões, o que é valorizado é parecer sempre perfeito, realizado e feliz, mesmo que essa não seja a realidade. Desde tenra idade, os desafios são crescentes. Não interessa quanto uma pessoa é inteligente, se não souber agir quando os obstáculos, as tristezas, as frustrações surgirem no seu caminho. Como diria o pai da inteligência emocional, Daniel Goleman, se não possuirmos competências emocionais e não soubermos gerir as nossas emoções não vamos muito longe, não conseguimos seguir em frente.

O papel da Escola é formar cidadãos livres, criativos, competentes e autónomos, capazes de enfrentar os desafios da sociedade do século XXI. Um século cada vez mais preocupante. O futuro parece-nos cada vez mais incerto, mais nebuloso para os nossos filhos e netos. A questão tão explorada, há anos, das alterações climáticas, veio provar a necessidade premente de tomar medidas face à escassez de água. A guerra trouxe para o mundo imagens de atrocidade, desespero e morte, mas também o aumento do valor dos bens essenciais, da energia e a diminuição do dinheiro, nas carteiras. Esta é a nossa realidade.

É crucial revelar às nossas crianças e jovens, que vivem num mundo onde mostrar aos outros que estamos sempre felizes, nas redes sociais, é regra, que, afinal, o mundo nem sempre é cor-de-rosa. É essencial encurtar a distância que os envolve. O tempo dos telefonemas, dos encontros deu lugar à falta de tempo, às mensagens por WhatsApp, à falta de comunicação vivida e sentida, aos desabafos e pedidos de ajuda, à solidão no quarto. Quantas vezes, percorro o corredor da Escola e encontro um grupo de jovens, em silêncio, cada um no seu telemóvel. Ainda que a época pandémica que vivemos (e ainda existe), com os vários confinamentos, tenha contribuído para o vício das tecnologias, o levantamento das restrições deveria ter aproximado mais os jovens no que concerne a comunicação presencial. O mês de agosto espelhou, nas festas, uma necessidade real de estar com os amigos, de abraçá-los e aproveitar o momento. Não houve concerto, baile ou outro qualquer evento que não estivesse lotado. No entanto, quantos e quantos jovens continuavam agarrados ao telemóvel.

Sinto que o poder da vida escorre pelos dedos das nossas crianças. É importante aprenderem os variadíssimos currículos das disciplinas, mas mais crucial, ainda, é ensinar-lhes a conciliar a inteligência com as emoções, é permitir-lhes alcançar uma vida mais rica, com menos níveis de ansiedade, maior equilíbrio emocional, maior capacidade de tomar decisões, maior autocontrolo e maior autoestima.
                          Aumento significativo da depressão nos jovens

Faço aqui um parêntese, para chamar a atenção para um aumento significativo da depressão nos jovens, que têm uma vida pela frente, mas vivem presos à ansiedade, ao stress, à pressão. A saúde mental dos adolescentes e jovens adultos vive a reboque da precariedade e da inexistência de um futuro promissor e a fatura já se começa a pagar: quase um quarto dos portugueses entre os 15 e os 34 anos já pensou ou tentou suicidar-se e 26% já tomou medicamentos para a ansiedade – dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos, no retrato Os jovens em Portugal, hoje: Quem são, que hábitos têm, o que pensam e o que sentem.

Assim, e apesar de toda a controvérsia que caracteriza a classe docente, o professor tem a maior missão do mundo. Assim, sou, assim acredito. O professor tem a função de mostrar o caminho, aos seus alunos. de fornecer uma mochila repleta de valores, regras, sentimentos, resiliência e persistência para enfrentar as dificuldades que surgirem mais tarde. Na sala de aula, o professor, de mãos dadas com os seus alunos, ensina o currículo, mas também lhe cabe a tarefa de estar atento, de dialogar, de compreender um gesto, uma reação, de ler o olhar, de parar, se preciso for. Ao professor cabe sentir e fazer sentir, cabe gerir emoções e compreendê-las para agir.

Urge fazer da Escola um lugar feliz, um lugar seguro, onde os alunos sintam que estão a crescer para serem bons cidadãos, para que compreendam que o caminho da vida contém pedras, rochedos e dar-lhes as ferramentas para o enfrentar, sem medo de falhar, sem ansiedade, sem frustração, sem pressão, com espírito empreendedor, com a crença de que o sucesso virá.  Aos pais, é urgente ter tempo, consagrar tempo à família, no meio da rotina, do stress imposto pelo relógio, parar, falar com o coração, curar feridas, ouvir, estar atento, encorajar, abraçar.

O sucesso deste processo só pode ser a formação de cidadãos mais felizes, mais resilientes, mais seguros, mais ativos, mais participativos. Compreender o outro, pôr-se no lugar do outro, intervir para agir são resultados positivos para quem possui inteligência emocional. Aceitar a diferença, lutar a favor da igualdade de género, contra a violência doméstica, proteger o ambiente, compreender o outro e pôr-se no lugar do outro fazem, reconhecer o erro, pedir perdão, cuidar são parte dos objetivos da missão da Escola, do professor, na sua sala de aula, de coração aberto e olhos iluminados. Alunos felizes serão cidadãos felizes que darão voz às suas convicções, às suas ideias, porque é assim que serão proativos, por eles e em prol dos outros.

Acredito que a Escola contribui para o estímulo e o treino da inteligência emocional, junto das nossas crianças e jovens, mas também junto das famílias. Professores motivados cumprem a sua missão, dão de si mais do que o exigido e do que é valorizado. Os professores e as famílias fazem parte de uma adição cujo resultado só pode ser positivo.

A Educação é um dos pilares que sustém a sociedade. Não reconhecer esta premissa é não querer um melhor futuro para os nossos filhos, para nós, pais, para os avós, para quem precisa de ser cuidado, para todos e todas, para Portugal e para o mundo.

Professores felizes, alunos felizes, pais felizes. Juntos com a mesma visão: a promoção do sucesso escolar aliado à promoção de ferramentas que permitam gerir os desafios do mundo, do século XXI.

Um bom regresso para todos!

 

Sandra Correia

sandrampcorreia@gmail.com

 

 

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