8º DOMINGO COMUM (Ano C)
O discurso sobre a caridade, no evangelho de S. Lucas, está seguido de algumas aplicações práticas que esboçam a fisionomia dos discípulos de Cristo, os quais, como diz S. Mateus, devem ser “luz do mundo” (5,14).
Torna-se impossível ser luz para os outros, se não se tem essa luz. “Pode um cego guiar outro cego?” (Lc 6,39). A luz do discípulo não deriva da sua perspicácia, mas sim dos ensinamentos de Cristo, aceites e seguidos docilmente, porque “não está o discípulo acima do mestre”. Somente na medida em que assimila e traduz na vida a doutrina e os exemplos do mestre, até chegar a ser uma imagem viva do mesmo, pode o cristão ser um guia luminoso para os irmãos e atraí-los a Cristo. É um trabalho que compromete a vida num esforço contínuo para se tornar cada vez mais semelhante a Cristo. Isto requer uma serena introspecção que permita conhecer os próprios defeitos para não cair no absurdo denunciado pelo Senhor: “Porque vês o argueiro que está no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu olho?”.
03-03-2019
Nunca deve acontecer que o discípulo de Jesus exija dos outros o que não pratica, ou pretenda corrigir no próximo o que tolera em si mesmo, talvez duma forma mais grave. Combater o mal nos outros e não o combater no próprio coração, é hipocrisia, contra a qual se manifestou o Senhor com enérgica intransigência. O critério para distinguir o autêntico discípulo do hipócrita, são as palavras e as obras: “cada árvore conhece-se pelo seu fruto”. Já no Antigo Testamento tinha dito: “O cuidado tido com uma árvore mostra-se no fruto; assim, a palavra manifesta o que vai no coração do homem” (primeira leitura). Jesus adopta esta comparação, já conhecida dos seus ouvintes, e desenvolve-a, pondo em evidência que o mais importante é sempre o interior do homem, onde nasce o seu comportamento. Assim como o fruto manifesta a qualidade da árvore, do mesmo modo as obras do homem mostram a bondade ou malícia do seu coração. “O homem bom, do bom tesouro, do seu coração, tira o que é bom; e o mau, do mau tesouro, tira o que é mau” (evangelho). O hipócrita pode mascarar-se quanto quiser, antes ou depois, o bem ou o mal, que tem em si, transborda e permite que se veja, “pois da abundância do seu coração é que fala a sua boca”. Eis, pois, aqui um aspecto importante: deve guardar-se diligentemente o “tesouro do coração”, extraindo dele toda a raiz de maldade, e cultivar toda a espécie de bem, especialmente a rectidão, a pureza e a recta e sincera intenção.
Porém, é evidente que ao discípulo de Cristo não lhe é suficiente um coração naturalmente bom e recto, necessita também dum coração renovado e modelado, segundo os ensinamentos de Cristo, um coração totalmente convertido ao evangelho. Tal empenhamento é árduo, porque, no coração do discípulo, a tentação e o pecado estão continuamente à espreita. Por isso, S. Paulo, procurando incutir ânimo aos cristãos, recorda que Cristo venceu o pecado e a que Sua vitória é garantia da vitória do cristão. “Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo”.
“Vós, ó Jesus, acendestes a luz para brilhar. Fazei que estejamos vigilantes e cheios de zelo, não só por causa da nossa salvação, mas também pela salvação daqueles que foram conduzidos pela Vossa mão à verdade. Fazei que a nossa vida seja digna da graça, a fim de que, assim como a graça se prega em todo o lado, também com ela corra paralelamente a nossa vida” (S. João Crisóstomo).
Ano C - Tempo Comum - 8º Domingo - Boletim Dominical