Templates by BIGtheme NET
Início » Religião (Pagina 4)

Religião

Liturgia do III Domingo da Quaresma- ano C

 

Estamos imersos numa sociedade, onde existem imensas situações que reclamam a nossa atenção: o cuidado dos idosos, a intolerância, tantas formas subtis de ódio, a violência das palavras e dos juízos de valor, a desconfiança, um certo espírito de vingança ou de querer que aqueles que cometeram alguma injustiça paguem duramente pelos seus actos. Todos os dias temos conhecimento de novas tragédias naturais ou provocadas pela violência da guerra ou do terrorismo. À nossa volta, entre os nossos amigos e pessoas mais próximas, encontramos situações de sofrimento causadas pela doença e pelo abandono. Diante deste cenário, não podemos ficar indiferentes.

Mas perante esta realidade, onde está Deus? Deus não está longe nem indiferente aos sofrimentos do mundo. Se há alguém que não pode suportar o sofrimento da humanidade é o nosso Deus. O diálogo que Moisés tem com o Senhor revela claramente a sensibilidade de Deus ao sofrimento dos homens e o Seu desejo de os libertar. Disse o Senhor: “Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor…conheço, pois, as suas angústias. Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel”.

Através de uma sarça ardente, Deus chamou Moisés e este respondeu-lhe: “Aqui estou”. O Senho suscita vocações para trabalhar na construção de um mundo melhor, mais justo e mais fraterno. Poderíamos pensar que a conversão que nos proposta pela Quaresma é somente uma mudança interior, um olhar mais espiritual da vida. Mas não é assim. Moisés descobre que tem uma missão que é dada por Deus e que o fará sair do conforto de apascentar o seu rebanho. O compromisso dos cristãos deveria ser como uma sarça que arde no nosso coração e que nos envia a responder com as nossas capacidades às pessoas que têm de ser acolhidas e atendidas. Um gesto solidário, uma palavra amiga, uma informação, um olhar de simpatia e de cordialidade. Tudo isto pode ser feito através das instituições sociais caritativas, da amizade, escutando, visitando, ou de actividades políticas desinteressadas e não-eleitorais.

Para que tal aconteça, há que cultivar a atitude da mão estendida, ou seja, trabalhar juntos pelo bem comum. A política favorece a paz se reconhecer as capacidades de cada pessoa. Haverá algo mais belo do que uma mão estendida? Esta atitude é desejada por Deus para dar e receber. Deus não quer a mão estendida para matar ou fazer sofrer, mas para que se ajude a viver. Com o coração e a mente unidos, também a mão pode tornar-se um instrumento de diálogo.

Perante as desgraças ou as injustiças, temos a tentação de desviar o olhar ou ficar indiferentes, pensando que nada temos a ver com isso. Será que estamos dispostos a mudar esta maneira de pensar e de agir e colaborar com as nossas humildes forças em mudar as coisas e construir uma sociedade melhor? Se não somos solidários, se não formos sensíveis, todos poderemos sofrer as consequências. Por vezes, como diz Jesus, podemos ser como a figueira da parábola que não dava fruto. Porém, o vinhateiro disse: “Senhor deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos”.

Que frutos podemos dar? Sentir a dor dos outros como própria. Estar consciente de que as injustiças irão ser resolvidas, trabalhar com generosidade pelos outros sem esperar recompensa. Assumir as responsabilidades da vida com entusiasmo. Deus é paciente e quer o nosso bem. É vontade de Deus que sejamos instrumentos ao serviço das causas humanitárias. Não podemos desviar o olhar e fugir na hora de servir os outros. Não podemos pensar que já fazemos o suficiente e que está tudo bem. O Senhor inunda-nos de graça e de ternura. Esta é a certeza que nos deve acompanhar durante o tempo da Quaresma. O Deus compassivo e misericordioso conta connosco para que o seu amor libertador chegue a todos os corações e confins da terra.

 

20-03-2022

LEITURA ESPIRITUAL

«Talvez venha a dar frutos no futuro»: imitar a paciência de Deus

 

Irmãos bem-amados, Jesus Cristo, Nosso Senhor e Deus, não Se contentou em ensinar a paciência por palavras; também a demonstrou com os seus actos. Na hora da Paixão e da cruz, quantos sarcasmos ultrajantes escutados com paciência, quanta troça injuriosa suportada, a ponto de ser cuspido, Ele que, com a sua própria saliva, tinha aberto os olhos a um cego (Jo 9,6); viu-Se coroado de espinhos, Ele que coroa os mártires com flores eternas; bateram-Lhe na face com as palmas das mãos, a Ele que concede palmas verdadeiras aos vencedores; foi despojado das suas vestes, Ele que reveste os outros de imortalidade; foi alimentado com fel, Ele que dá o alimento celeste; foi dessedentado com vinagre, Ele que dá a beber o cálice da salvação.

Ele, o inocente, Ele, o justo, ou antes, Ele, que é a própria inocência e a justiça, foi contado entre os malfeitores; falsos testemunhos esmagaram a Verdade; Aquele que deverá ser o juiz foi submetido a julgamento; a Palavra de Deus foi conduzida ao sacrifício, calando-Se. A seguir, quando os astros se eclipsaram, quando os elementos se perturbaram, quando a terra tremeu, Ele não falou, não Se mexeu, não revelou a sua majestade.

Tudo suportou até ao fim com constância inesgotável, para que a paciência completa e perfeita tivesse o seu auge em Cristo. E, depois de tudo isto, acolherá os seus carrascos, se se converterem e se se voltarem para Ele: graças à sua paciência, não fecha a sua Igreja a ninguém. Aos adversários e aos blasfemos, eternos inimigos do seu nome, não apenas lhes concede o perdão, se se arrependerem das suas faltas, mas recompensa-os com o Reino dos Céus.

Seria possível indicar alguém mais paciente, mais benevolente? A mesma pessoa que derramou o sangue de Cristo é vivificada pelo sangue de Cristo. Tal é a paciência de Cristo, e se não fosse tão grande, a Igreja não teria o Apóstolo Paulo. (São Cipriano, c. 200-258, bispo de Cartago e mártir, «Os benefícios da paciência», 7).

http://www.liturgia.diocesedeviseu.pt/

 

 

 

 

 

 

 

Conferência Episcopal Portuguesa – Orientações para o Culto e atividades pastorais

2022-02-28_CEP_Orientacoes_CultoAtividadesPastorais

Mangualde- Campanha “Unidos pela Ucrânia” já enviou um camião com diverso material

Numa ação humanitária e de solidariedade para com o povo da Ucrânia – “Unidos pela Ucrânia”, o Município de Mangualde, em cooperação com a ONG Together Internacional, os escuteiros de Mangualde Agrupamento 299, a Paróquia de Mangualde e os Transportes Lemos, enviou um camião com material médico-hospitalar, nomeadamente camas articuladas, colchões, roupas de cama, cadeiras de rodas, andarilhos, entre outros materiais fundamentais para garantir assistência à população ucraniana vítima da guerra.

O material angariado, doado pela população e diversas entidades, tem como destino um Hospital de Campanha na cidade ucraniana de Lviv. Para o Presidente da Câmara Municipal de Mangualde, Marco Almeida, “esta ajuda humanitária é, mais uma vez, resultado da força solidária, de integração e de apoio ao outro, que tão bem caracteriza os mangualdenses.”

Nos próximos dias, a Associação Humanitária Cruz de Malta irá entregar em Campos de Refugiados, todos os bens alimentares e de primeira necessidade recolhidos nesta campanha solidária.

Liturgia do II Domingo da QUARESMA – ano C

 

a)         Assim como no primeiro Domingo da Quaresma o evangelho narra sempre as tentações de Jesus no deserto, segundo a versão dos três evangelistas sinópticos, também no segundo Domingo da Quaresma o evangelho é a narração da transfiguração do Senhor. Neste ano escutaremos a versão de São Lucas (ano C) que nos relata a subida de Jesus com Pedro, Tiago e João ao cimo do Monte Tabor. Aí, estes discípulos fizeram uma forte experiência espiritual: contemplam Jesus transfigurado, reconhecem-no como Filho de Deus (a voz do céu certifica esta realidade), em quem se cumpre a Lei e os Profetas (representados por Moisés e Elias). Esta experiência espiritual marcou profundamente estes três discípulos para toda a vida, especialmente para a sua missão. Todos podemos fazer esta experiência dos discípulos: contemplar Jesus na sua dimensão mais profunda, através da escuta da Palavra e do alimento espiritual para fortalecer a nossa fé e o nosso caminho de discípulos do Senhor. A Oração Colecta deste domingo realça isto mesmo: “Deus de infinita bondade, que nos mandais ouvir o vosso amado Filho, fortalecei-nos com o alimento interior da vossa palavra, de modo que, purificado o nosso olhar espiritual, possamos alegrar-nos um dia na visão da vossa glória”. O objectivo da Quaresma é aprofundar o conhecimento de Jesus Cristo, sobretudo a sua paixão, morte e ressurreição, para “celebrarmos dignamente as festas pascais” (Oração sobre as Oblatas). O Prefácio deste Domingo também nos diz: “Cristo nosso Senhor depois de anunciar aos seus discípulos a sua morte, manifestou-lhes no monte santo o esplendor da sua glória, para mostrar, com o testemunho da Lei e dos Profetas, que pela sua paixão alcançaria a glória da ressurreição”.

 

b)        As tentações ocorreram no deserto. Hoje, Jesus, acompanhado de três discípulos, sobe a uma alta montanha e ali se transfigura. Deserto, Montanha… são lugares privilegiados para se ter uma experiência de relação com Deus, de encontro com o Senhor, de contemplação, de meditação. O tempo da Quaresma é óptimo para este tipo de experiências: procurar espaços de reflexão, de oração e de retiro. Evidentemente, existe um perigo: ficar na montanha: “Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas”. É um perigo de uma vida espiritual intensa, mas fechada, isolada, sem contacto com o mundo e com a vida. Isto não é bom. Jesus convida-os a descer a montanha e a regressar para a realidade da vida, transformados, renovados e fortalecidos pela experiência da transfiguração. Os momentos de retiro e de oração que poderemos procurar servem para regressar ao quotidiano da vida com mais força, mais firmeza, mais esperança.

 

c)         A vida de um cristão nem sempre é fácil. É necessário ter um espírito firme, uma fé renovada cada dia. Uma fé que vem de longe. Seguindo os grandes momentos da história da salvação, que iremos escutando na primeira leitura do Antigo Testamento nestes Domingos da Quaresma, hoje escutamos a aliança que Deus fez com Abraão, como pai do povo de Israel, do povo escolhido. Deus promete-lhe uma terra e uma grande descendência. Jesus renovou a aliança de Deus com os homens. São Paulo, na segunda leitura, anima os seus leitores e a nós também, a ir configurando a vida ao estilo de Jesus que supõe muitas vezes a cruz, mas que leva à salvação. São Paulo diz que aqueles que somente apreciam as coisas terrenas irão para a perdição, mas aqueles que são capazes de reconhecer que são concidadãos do céu vivem com outros valores e com outras perspectivas. Um estilo de vida “transfigurado”, cheio da experiência profunda de sentir Deus como nossa luz e nossa salvação (salmo responsorial), coerente com a esperança que professamos.

 

d)        As exortações de S. Paulo podem ser aproveitadas para a homilia deste Domingo, destacando as seguintes palavras: “meus amados e queridos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor”. Assim seremos “transfigurados” e convertidos, tornando fecundo o nosso caminho quaresmal.

13-03-2022

http://www.liturgia.diocesedeviseu.pt/

Liturgia do I Domingo da Quaresma – ano C

A cultura do nosso tempo está muito centrada nas imagens. Pelo ecrã do nosso televisor entram muitas imagens de grande impacto. Chega-nos imagens de tudo e torna-se difícil de separar o que alimenta a verdade. Estes últimos dias ou semanas estão imersos nas festas, nas cores e na música dos carnavais.

Mas agora, a imagem é o caminho da Quaresma que se inicia. Um caminho para despojarmo-nos de todos os disfarces e de todas as nossas máscaras. Uma mudança interior. O próprio Jesus viveu esta mudança na sua experiência de deserto. Passar do externo e dos adereços para chegar a ser o que somos. Temos de nos livrar das ligaduras que nos impedem de sermos mais pessoas e mais livres. Esta é a experiência de Jesus.

Conhecemos o deserto através das fotografias e documentários, mas a vida no deserto não é nada fácil. Por vezes é um lugar de sofrimento, de desespero e de morte. Na Bíblia encontramos muitos relatos a este respeito. É também a história de muitos que procuram Deus. No deserto pode encontrar-se um silêncio profundo, a austeridade natural, o ver-se a si mesmo sem engano, comunicar sem palavras, descobrir na sua grandeza a presença de Deus. Uma presença que se revela na brisa da manhã ou na luz ténue do anoitecer. As relações humanas no deserto têm a força da comunhão.

Num mundo imerso de tanto ruído de palavras e de imagens, precisamos de encontrar momentos para parar, respirar fundo, distanciarmo-nos dos problemas presentes na nossa vida e que parece que são inevitáveis e sem solução. O deserto é tempo de silêncio e de jejum. De silêncio para escutar. De jejum para ficarmos em vigilante esperança de tudo o que possa acontecer. Mas também é tempo de oração. A oração é o meio que nos mostrou Jesus como antídoto contra o engano, a fuga ou a pouca consciência dos nossos limites. A oração coloca-nos nas mãos de Deus e do seu Espírito, que nos conduz e nos dá aquela sabedoria interior que nos faz ver a realidade tal como ela é e como a podemos transformar. Será que dispomos de tempo para escutar Deus que nos fala? Será que o escutamos quando nos chama através dos outros que nos pedem atenção, consolação e ajuda de mão estendida?

Jesus vai ao deserto porque procura cumprir a vontade do Pai. Para servir melhor na sua missão: instaurar o Reino da justiça e da paz, o Reino da fraternidade. O Espírito Santo levou-o para o deserto e inspirou-o nas suas respostas contra todas as insídias e manipulações do mal diabólico. Perante a sedução do poder, Jesus opta pelo compromisso de servir e de se entregar. Perante a sedução das seguranças, Jesus opta pelo risco e pelo esforço necessário na missão de trabalhar por um mundo melhor. Deus ouve o nosso clamor como escutou o clamor do povo de Israel. Também Ele nos fará sair do Egipto da escravidão e do peso de tantas coisas que nos bloqueiam e de tantos medos que nos paralisam. Que frutos podemos oferecer a Deus como fazia o povo de Israel? Os frutos da terra, de cada dia, da luta para combater as rotinas e os negativismos. Os frutos do trabalho, do esforço, do acolhimento, da solidariedade, do perdão e da misericórdia.

Podemos estar cansados e termos a tentação de baixar os braços. De sentir a decepção e esquecer que temos a fé no coração, alimentada pelo Espírito que nos acompanha ao deserto, mas que também nos inspira no meio do emaranhado de tudo o que fazemos e vivemos. Este é o caminho da Páscoa, para confessar e reafirmar a nossa fidelidade a Jesus ressuscitado que nos liberta, que dá sentido à nossa vida e alimenta a nossa esperança para vencer todo o desânimo e decepção.

A cinza convida-nos a fazer este caminho de conversão, de mudança interior. A partir da simplicidade de um coração arrependido, que escuta e se abre para Deus e para os irmãos. O pão e o vinho da Eucaristia tornam presente a vida de Jesus que se ofereceu a si próprio para alimentar a nossa fidelidade e o nosso compromisso.

 

06-03-2022

LEITURA ESPIRITUAL

«Assim como, pela desobediência de um só, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornaram justos» (Rm 5,19)

O demónio atacou o primeiro homem, nosso pai, com uma tripla tentação: tentou-o pela gula, pela vaidade e pela avidez; esta tentativa de sedução resultou, pois o homem, ao dar o seu consentimento, ficou submetido ao demónio. Tentou-o pela gula, mostrando-lhe na árvore o fruto proibido e convidando-o a comê-lo; tentou-o pela vaidade, dizendo-lhe: «Sereis como deuses»; tentou-o enfim pela avidez, ao dizer-lhe: «Conhecereis o bem e o mal» (Gn 3,5).

Porque ser ávido não é apenas desejar o dinheiro, mas também qualquer situação vantajosa; é desejar qualquer situação elevada para além do razoável. O demónio foi vencido por Cristo, que O tentou de um modo semelhante àquele pelo qual tinha vencido o primeiro homem. Como da primeira vez, tentou-O pela gula: «Ordena a estas pedras que se transformem em pães»; pela vaidade: «Se és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo»; e pelo desejo intenso de uma situação confortável, mostrando-Lhe todos os reinos do mundo e dizendo-Lhe: «Dar-Te-ei tudo isto se, prostrado a meus pés, me adorares».

Notemos o seguinte no episódio das tentações do Senhor: tentado pelo demónio, Ele ripostou com textos da Sagrada Escritura. Poderia ter lançado o seu tentador no abismo; mas não recorreu ao seu infinito poder, limitando-Se a pôr em primeiro lugar os preceitos da Sagrada Escritura. Deste modo, mostrou-nos como podemos suportar as provas, para que, quando os maus nos fazem sofrer, recorramos à boa doutrina e não à vingança. Comparai a paciência de Deus com a nossa impaciência: nós, quando recebemos injúrias ou sofremos uma ofensa, na nossa fúria, vingamo-nos ou ameaçamos fazê-lo; o Senhor, pelo contrário, suporta os ataques do demónio e responde-lhe com palavras de paz. (São Gregório Magno, c. 540-604, papa, doutor da Igreja, Catequeses sobre o Evangelho, nº 16).

http://www.liturgia.diocesedeviseu.pt/

Liturgia do Domingo VIII do Tempo Comum – ano C

 

As palavras que Jesus nos dirige neste Domingo ajudam-nos, como sempre, a percorrer o caminho da nossa vida, tendo como meta a santidade, contemplar face a face o Pai. Gostamos muito de reflectir as mensagens mais agradáveis do evangelho, deixando um pouco de lado aquelas que são mais directas, duras e exigentes. A vida é sempre exigente e o evangelho é sempre importante, seja qual for a sua mensagem. Podemos cair na tentação de pensar que ser cristão é como ir a uma cantina “self-service”, onde colocamos de lado o que não nos agrada e só escolhemos o que nos interessa e o que gostamos. Se os nossos antepassados tivessem caído neste erro, o evangelho teria somente chegado até nós de forma parcial. Talvez neste Domingo possamos estar nesta atitude. É por isso que temos de nos deixar interrogar com as palavras que Jesus nos diz. Jesus dirige-se aos discípulos através de um provérbio: “Poderá um cego guiar outro cego?”. Em algumas passagens do evangelho, as palavras de Jesus necessitam de uma interpretação, mas este provérbio não precisa de muitas explicações. A resposta é evidente: não, um cego não é capaz de guiar outro cego, porque ambos cairão numa cova. De certeza que Jesus, ao proferir estas palavras, teria em mente os fariseus e desejaria avisar os seus discípulos do perigo em seguir os ensinamentos farisaicos. Situemos este provérbio no nosso contexto cristão. O cego é aquele que não pode ver e, portanto, não é capaz de ver a luz. Esta situação condiciona muito a sua forma de viver, governar e orientar a vida. Se deixarmos o aspecto fisiológico, que todos conhecemos bem, e nos centrarmos na vida espiritual cristã, sabemos que esta luz, para nós, é Jesus Cristo. O cego espiritual é aquele que ainda não conseguiu contemplar a luz de Cristo. Estamos de acordo que um cego não pode guiar outro cego, mas uma pessoa que acolheu esta luz na sua vida pode acompanhar todos aqueles que ainda andam nas trevas. Há um aspecto que, na maior das vezes, é muito descuidado e, até, abandonado: a direcção espiritual, o acompanhamento espiritual. Como queremos avançar no caminho da nossa vida se não temos ou não queremos alguém que nos acompanhe? Vivemos numa sociedade que procura referências nos actores, nos treinadores, nos jogadores, nos comentadores…até a alguns chamam “mister”. Mesmo aqueles que se chamam agnósticos necessitam de “médiums” quando perdem uma pessoa amada. E nós abandonamos, desvalorizamos a possibilidade de um mestre da oração e da fé nos acompanhar e ajudar a encontrar Jesus Cristo. Não precisamos de tecnocratas de psicologia ou de espiritualidade. Precisamos de pais, paternidade e maternidade espirituais, experientes em lidar com o mais íntimo do ser na fé e com a teoria livresca e universitária vivida e rezada. Quem tem a alegria de encontrar alguém com este perfil – orante, contemplativo na acção, directo, transparente, silencioso, sigiloso, bondade pura e sincera – encontra um tesouro. Jesus volta a abordar os seus discípulos com um segundo provérbio: “Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua?”. E é tão fácil responder a esta pergunta: porque é mais fácil apontar o dedo aos erros, problemas e dificuldades dos outros do que organizar a minha vida. Estas palavras de Jesus recordam-nos que passamos muitas vezes a vida a julgar os outros. Pensamos que somos os reis e senhores deste mundo, que somos os juízes não só das pessoas, mas também de todos os acontecimentos, que temos autoridade de dar opinião de tudo e de todos como se fossemos um comentador televisivo afamado. Fazendo um exame de consciência, uma revisão de vida, damos conta que não somos a razão nem o juiz de ninguém, que na nossa vida nem sempre tudo é bom, que também somos frágeis e erramos. Pela terceira vez, Jesus diz outro provérbio: “Não há árvore boa que dê mau fruto, nem árvore má que dê bom fruto”. Neste jogo de palavras que Jesus utiliza, recordo aquilo que a primeira leitura diz, do livro de Ben-Sirá: “o fruto da árvore manifesta a qualidade do campo”. O nosso fruto como pessoas, como discípulos de Cristo, será bom se nos esforçarmos por cultivar todas as virtudes e dons que Deus nos concedeu para o bem da nossa vida. Prudência, Humildade, Transparência, Verdade, precisam-se!

 

27-02-2022

LEITURA ESPIRITUAL

«Cada árvore conhece-se pelo seu fruto»

 

Na criação, Deus mandou que as plantas dessem os seus frutos, cada uma «segundo as suas espécies» (Gn 1,11); da mesma maneira, ordenou aos cristãos, que são as plantas vivas da sua Igreja, que produzissem frutos de devoção, cada um segundo a sua qualidade e vocação. A devoção, a vida cristã, deve ser exercida de formas diferentes pelo fidalgo, pelo artesão, pelo criado, pelo príncipe, pela viúva, pela jovem e pela mulher casada; e também é preciso acomodar a prática da devoção às forças, às actividades e aos deveres específicos de cada um. E se o bispo preferisse ser solitário como os monges? E se os casados não quisessem trabalhar como os capuchinhos, se o artesão estivesse todo o dia na igreja como o religioso, e o religioso constantemente exposto a todo o tipo de encontros para o serviço do próximo como o bispo? Tal não seria ridículo, desregrado e insuportável? Este erro, no entanto, é muito frequente. A devoção, quando é verdadeira, em nada prejudica; pelo contrário, tudo aperfeiçoa. «A abelha», diz Aristóteles, «tira o mel das flores sem as estragar», deixando-as inteiras e frescas como as encontrou. A verdadeira devoção faz ainda melhor, pois, não só não prejudica nenhum tipo de vocação nem actividade, como, pelo contrário, as honra e embeleza. Com ela, o cuidado da família torna-se mais pacífico, o amor do marido e da mulher mais sincero, o serviço do príncipe mais fiel, e todos os tipos de ocupação mais suaves e amáveis. Não é só um erro, é também uma heresia querer banir a devoção das companhias de soldados, das lojas dos artesãos, da corte dos príncipes, dos lares dos casais. Onde quer que estejamos, podemos e devemos aspirar à perfeição. (São Francisco de Sales, 1567-1622, bispo de Genebra, doutor da Igreja, Introdução à vida devota, I, cap. 3).

 

http://www.liturgia.diocesedeviseu.pt/

Liturgia do Domingo VII do Tempo Comum – ano C

Grandes e fundamentais conselhos de Jesus encontramos no texto evangélico deste Domingo! “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á”. Destas últimas palavras do evangelho deste Domingo, deve partir a nossa reflexão. Jesus pede-nos para sermos misericordiosos, ao mesmo tempo que nos revela um dado essencial de Deus: Ele, nosso Pai, é misericordioso. Com este jogo de palavras, Jesus deixa claro que tudo o que fizermos em favor dos nossos irmãos, Deus, nosso Pai, nos retribuirá da mesma forma. Nós somos cristãos porque seguimos Jesus e celebramos, em comunidade, a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. Mas os nossos irmãos conhecem-nos como cristãos pela nossa forma de agir e de amar. Neste Domingo vamos colocar a nossa atenção nas nossas relações com os outros, mesmo até com aqueles que não nos apreciam. A primeira afirmação de Jesus neste domingo deixa-nos confusos, apesar de ser uma frase bem conhecida de todos: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam”. De fato, é um pedido muito difícil. Será que a palavra “inimigo” é excessiva no nosso contexto, porque as nossas relações procuram ser educadas e com respeito? Em primeiro lugar, temos de pensar se na nossa vida temos inimigos, porque, às vezes, vemos fantasmas, onde nada existe. Em segundo lugar, consultemos o dicionário para encontrar a definição da palavra “inimigo”. O primeiro significado desta palavra é hostil, contrário, adverso. O segundo significado é adversário numa guerra. Por vezes, pensamos que o inimigo é aquele que não tem qualquer afinidade connosco, não porque nos queira fazer mal, mas porque simplesmente não nos agrada. Então, como podemos amar os nossos inimigos? Jesus não nos pede passividade nem neutralidade. Pede-nos para fazer o bem àqueles que nos querem mal. Assim, vai contra os nossos esquemas! E apresenta-nos a forma de o fazer, com acções concretas. Não se trata, portanto, de um discurso genérico e abstracto, mas de estabelecer vínculos de afecto com todos os nossos irmãos. Esta é a receita se queremos ser discípulos de Jesus Cristo e se queremos ser conhecidos como cristãos: fazer o bem aos que nos odeiam, abençoar os que nos amaldiçoam, rezar por aqueles que nos ofendem. É muito fácil amar os que nos amam. Mas é preciso fazer mais: é preciso mudar o mundo, continuar a construção do Reino de Deus, com pequenas, simples e silenciosas mudanças; é preciso colocar de lado o nosso medo dos outros e a nossa violência para com eles, sobretudo para com aqueles que nos feriram. Se a violência não gera uma resposta violenta, começa a perder a sua força, porque não recebe contestação. Assim podemos contribuir para que a paz e a concórdia reine um pouco mais nos nossos dias.

LEITURA ESPIRITUAL

«Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso.»

Se a nossa caridade fosse acompanhada de compaixão e de pena, não daríamos tanta atenção aos defeitos do próximo, de acordo com aquela palavra que diz: «A caridade cobre uma multidão de pecados» (1Pd 4,8). Por isso, se tivéssemos caridade, essa mesma caridade cobriria todas as faltas e nós seríamos como os santos quando vêem os defeitos dos homens. Quer dizer que os santos são cegos a ponto de não verem os pecados? Mas haverá quem deteste tanto o pecado como os santos? E, contudo, eles não odeiam o pecador, não o julgam, não o evitam. Pelo contrário, compadecem-se dele, exortam-no, consolam-no, tratam-no como a um membro doente; fazem tudo para o salvar. Quando uma mãe tem um filho deficiente, não se afasta dele com horror, mas tem gosto em vesti-lo bem e em tudo fazer para o embelezar. É dessa maneira que os santos protegem sempre os pecadores e se ocupam deles para os corrigirem no momento oportuno, para os impedirem de prejudicar outrem e, assim, progredirem eles próprios na caridade de Cristo. Adquiramos, pois, também nós, a caridade; adquiramos a misericórdia para com o próximo, para nos defendermos da terrível maledicência, do julgamento e do desprezo. Prestemos socorro uns aos outros, como se fossem os nossos próprios membros. Porque «somos membros uns dos outros», diz o apóstolo Paulo (Rm 12,5); ora, «se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele» (1Cor 12,27). Numa palavra, tende cuidado, cada qual à sua maneira, de permanecer unidos uns aos outros. Porque, quanto mais unido se está ao próximo, tanto mais se está unido a Deus. (Doroteu de Gaza, c. 500-?, monge na Palestina, Instruções, IV, 76).

http://www.liturgia.diocesedeviseu.pt/

20-02-2022

Liturgia do Domingo VI do Tempo Comum – ano C

 

Continuando a leitura do evangelho de S. Lucas, neste Domingo encontramo-nos no capítulo sexto. Depois do chamamento dos primeiros discípulos, a liturgia propõe-nos o início de um longo discurso de Jesus, deixando de lado uma serie de episódios que Lucas tem em comum com os outros textos evangélicos sinópticos. As leituras deste Domingo, à primeira vista, parece que nos colocam diante de uma contradição. Contrapõe-se a bênção para todo aquele que confia em Deus, à maldição para todo aquele que confia nos homens. É isto que encontramos na primeira leitura do profeta Jeremias e no texto do evangelho. Neste Domingo, Jesus dirige-se não só aos seus discípulos mas também a uma grande multidão. O seu discurso é uma exposição dos requisitos fundamentais do Reino de Deus, que supera a compreensão deste mundo. O texto deste domingo está muito relacionado com o sermão da montanha em S. Mateus, apesar de este ser mais breve. São Lucas apresenta as palavras de Jesus como uma proclamação aos pobres e aos que sofrem e como um convite ao compromisso. Uma das diferenças mais notáveis é que neste discurso Jesus encontra-se num sítio plano, porque para S. Lucas o monte é o lugar do encontro entre Deus e Jesus, e Jesus desce do monte quando tem de se encontrar com as pessoas. As primeiras três bem-aventuranças formam claramente uma “trindade” idêntica com uma igual estrutura. Lucas insiste no “agora” da pobreza, da fome, e do sofrimento. Em S. Mateus, o discurso tem um caracter religioso e sapiencial; em S. Lucas, o texto é mais profético e fala-nos da falta de meios para viver, do sofrimento da pobreza. Não podemos esquecer que o evangelho de S. Lucas apresenta a predilecção de Jesus pelos pobres. Esta predilecção expressa a solicitude de Deus com os necessitados e os abandonados. Os pobres possuirão o Reino e, assim, serão felizes. Os pobres são felizes, não porque são pobres, mas porque Deus está junto deles. A quarta bem-aventurança faz referência aos sofrimentos por causa do Filho do homem, ou seja, da fé em Jesus. Este versículo faz referência ao futuro e não é para todos, mas para uma categoria de pessoas. É a situação dos primeiros cristãos, ainda muito ligados ao mundo judeu. Os discípulos de Jesus experimentam a condição dos pobres porque para ser fiel a Ele expõem-se à insegurança e à marginalização de um mundo que prefere outros critérios, como o poder e a riqueza. As bem- aventuranças são a felicidade daqueles que confiam no Senhor: os pobres, os famintos, os que choram e os que são odiados. Será que isto acontece hoje à nossa volta? A resposta é afirmativa. Encontramos tantas pessoas que vivem na pobreza e na doença, pessoas caluniadas que vivem com a esperança e a consolação de Deus, procurando viver nas pequenas coisas a felicidade que nos espera no céu. É por isso que as bem-aventuranças terminam com um versículo reservado à alegria: “Alegrai-vos e exultai, porque é grande no Céu a vossa recompensa”. Se com as dificuldades de todos os dias somos capazes de experimentar a alegria, maior será esta alegria quando o Reino de Deus vier na sua plenitude. Segundo São Lucas, o discurso de Jesus não termina com as bem-aventuranças, mas, de seguida, cataloga quatro advertências que surgem das próprias bem-aventuranças. Nestas advertências, a riqueza é apresentada como um risco real e perigoso porque dá uma falsa segurança. O rico sente-se auto-suficiente e não necessita de Deus, nem tem necessidade de se preocupar com os pobres, mas fecha-se no egoísmo e não pensa no seu destino eterno. Por isso é-nos dito que os ricos já receberam a sua recompensa. Todas estas seguranças e vida acomodada, nascidas da confiança no poder e na riqueza, podem virar-se contra o homem. Mas todas estas advertências não deixam de ser um aviso, que só reafirmam ainda mais a força das bem-aventuranças. Neste domingo poderemos pensar onde reside a nossa segurança e a nossa felicidade. Através das leituras, fica claro que o homem feliz é aquele que coloca a sua segurança em Deus e não nos homens e na riqueza. Somos convidados a rever a nossa vida e a fazer deste programa vital uma realidade essencial para todos.

 

 

LEITURA ESPIRITUAL

«Bem-aventurados vós, os pobres. Ai de vós, os ricos»

É com razão que o Senhor, proclamando a beatitude dos pobres, não diz: «o Reino de Deus será», mas: «é vosso». Estão próximos do Reino de Deus os que já possuem e trazem no seu coração o Rei de quem se disse que servi-l’O é reinar. Outros que se guerreiem para partilharem a herança deste mundo: «Senhor, minha herança e meu cálice» (Sl 15,5). Combatam entre si até serem os mais miseráveis dos homens: não lhes invejo nada do que procuram, porque «no Senhor encontro a minha alegria» (Sl 103,34). Tu, herança gloriosa dos pobres! Bem-aventurada riqueza dos que nada têm! Não só nos dás tudo quanto precisamos, como ainda, cheia de glória, transbordas de alegria, porque «uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante será lançada no vosso regaço» (Lc 6,38). Que a vossa alma se glorifique na sua humildade, ó pobres, e que olhe com desdém toda a grandeza deste mundo. Estão preparados para vós bens eternos, e vós preferis as coisas efémeras, semelhantes a um sonho? Como são infelizes aqueles que a bem-aventurada pobreza torna dignos de serem honrados pelo Céu, admirados pelo mundo e temidos pelo inferno, e que continuamente, na cegueira do seu espírito, olham a pobreza como uma miséria, a humildade como uma infâmia; àqueles que desejam enriquecer e caem nas armadilhas do diabo, que tudo lhes pertença! Quanto a vós, os que tendes por amiga a pobreza e encontrais suave a humildade de coração, a Verdade eterna dar-vos-á a certeza de possuirdes o Reino dos Céus; Ele guarda fielmente para vós este Reino que vos está reservado. (Beato Guerric de Igny, c. 1080-1157, abade cisterciense, Sermão para o dia de Todos os Santos, 6-7; SC 202).

 

http://www.liturgia.diocesedeviseu.pt/

13-02-2022

Liturgia do Domingo V do Tempo Comum – ano C

 

a)         Os textos da Liturgia da Palavra deste Domingo abordam um tema comum. O tema que tem como ideia mestra a Vocação ou o chamamento de Deus para uma missão especial, pessoal e intransmissível, no meio do seu Povo. Mas a vocação nunca pode ser algo de genérico, de abstracto, de meramente humano. Por isso, nas três leituras, temos três ideias – chave que nos ajudam a compreender toda a vocação: primeiro, há um Deus que se revela; segundo, esse Deus chama a pessoa e faz-lhe compreender o Seu chamamento; por fim, esse mesmo Deus, que se revela e chama, envia para uma missão concreta.

 

b)        A 1ª Leitura relata-nos a vocação de Isaías, que se encontra no Templo a participar na Liturgia. De repente, sente-se envolto no mistério de uma teofania de Deus. A linguagem usada transporta-nos imediatamente para a transcendência de Deus: Ele é, por excelência, o “Santo, sentado em trono alto e elevado…”; o Forte, Senhor dos Exércitos, cercado de Glória! A esta divina luz, Isaías toma consciência das suas limitações e fragilidades de homem. Sente necessidade de se purificar, de se converter para se tornar capaz de uma missão divina. O texto refere-nos o inefável diálogo de Deus com o homem, que é convidado a participar com Ele na obra de salvação do Povo. Mas, como será isso possível, se se sente indigno e incapaz? O próprio Deus, pelo Serafim, o purificará de toda a sua indignidade. Aquele que gozou da inefável experiência de santidade e transcendência de Deus, deverá ser mensageiro da conversão do Povo a essa mesma santidade. Temeroso, mas com coragem, aceita essa missão: “Eis-me aqui, Senhor; podeis enviar-Me…”. Para anunciar a Deus, é preciso “conhecê-Lo”. Isaías fez a inefável experiência do Deus Santo através da teofania em que se sentiu maravilhosamente imerso em Deus e este se Lhe revela. A iniciativa da revelação e do chamamento é sempre d’ Ele. Vivendo a experiência do seu Deus, Isaías compreenderá o que Deus é e o que quer dele. E aceitará a missão. Vocação e missão andarão sempre intimamente unidas.

 

c)         O começo da 2ª Leitura é precisamente a continuação deste mesmo tema, agora aplicado aos que seguem Jesus Cristo, a partir do anúncio das primeiras testemunhas: Cristo, a salvação de Deus, é anunciado através do Evangelho. Os Coríntios acolhem-n’O e vivem-n’O; permanecem-lhe fiéis e testemunham-n’O aos outros. É a maneira prática e verdadeira de acreditar – ter fé. Também a Paulo, no seu itinerário espiritual, Jesus se lhe revela no caminho de Damasco. Esta experiência maravilhosa leva-o a acolher, viver, anunciar e testemunhar Jesus até às últimas consequências. Por Ele se sente enviado, e viverá a sua missão de “apóstolo dos gentios” como testemunha fiel até ao fim. Paulo sabe que agora, nos “novos tempos”, a revelação fundamental de Deus é Seu Filho Jesus Cristo, e toda a vocação e missão passam necessariamente por Ele e pela Comunidade dos que O aceitam e O vivem. Por isso, nesta 1ª Carta aos Coríntios encontramos, talvez, o mais antigo “Credo cristão”, recebido das primeiras testemunhas da Ressurreição. “Credo” que, por sua vez, deverá continuar a ser transmitido, pelo tempo fora, na vida de cada crente.

 

d)        No Evangelho encontramos fundamentalmente estas mesmas ideias, embora sob roupagem diferente. O texto está relacionado com o chamamento e a vocação de Simão ao ministério apostólico. Após uma noite de faina intensa, mas infrutífera, às ordens de Jesus as redes são novamente lançadas à água. Para espanto geral, dá-se uma pesca abundante. São tantos os peixes que eles têm de pedir ajuda “aos colegas que estavam no outro barco”. Há aqui vários elementos fundamentais que devemos ter em conta para entender bem a mensagem desta Leitura: 1) O povo comprimia-se à volta de Jesus, para escutar a Sua Palavra. A Palavra congrega, ilumina. É a Palavra imperativa de Jesus que provoca uma “nova criação”, sobretudo no interior de Pedro e todos os seguidores do Evangelho. Por isso é que São Lucas insiste tanto na necessidade dos apóstolos terem sido companheiros e discípulos de Jesus. São os Seus primeiros ouvintes. Serão também as Suas primeiras testemunhas; 2) “Já que o dizes, largarei as redes”. Obediência à Palavra de Jesus, sem reticências, nem delongas inúteis. Por essa Palavra, viva e eficaz, a Igreja ganhou vida; obediente a essa mesma Palavra, ainda hoje será sinónimo de vida, de “Vida em abundância” para todos aqueles que neste mundo – que parece não querer nada com Deus nem de Deus – sentem verdadeira fome do Deus vivo; 3) “Não tenhas receio”. Diante das maravilhas do Senhor, Pedro sente-se indigno, pecador, como certamente cada um de nós. Ele veio para chamar os pecadores e fala-nos até da infinita alegria de Deus por um só pecador que se converta. “Não temas!”. O espírito de ousadia, de perseverança e de dedicação a toda a prova do pescador, que enfrenta os perigos do mar, serão postos ao serviço do Evangelho. E o Senhor estará com ele, como estará sempre connosco.

 

http://www.liturgia.diocesedeviseu.pt/

Símbolos da JMJ passam em Pinhel

Nos dias 6 e 7 de março, Pinhel vai receber os símbolos da JMJ, uma cruz que o Papa João Paulo II ofereceu aos jovens e um ícone de Nossa Senhora que o acompanha. Serão dois dias marcantes. Uma oportunidade única de estar perto destes símbolos que têm percorrido o mundo na mão dos jovens. A receção e o acolhimento dos símbolos têm dado muitos frutos um pouco por todo o mundo.

Com 3,8 metros de altura, a Cruz peregrina, construída a propósito do Ano Santo, em 1983, foi confiada por João Paulo II aos jovens no Domingo de Ramos do ano seguinte, para que fosse levada por todo o mundo. Desde aí, a Cruz peregrina, feita em madeira, iniciou uma peregrinação que já a levou aos cinco continentes e a quase 90 países. Foi transportada a pé, de barco e até por meios pouco comuns como trenós, gruas ou tratores. Passou pela selva, visitou igrejas, centros de detenção juvenis, prisões, escolas, universidades, hospitais, monumentos e centros comerciais.

Liturgia do Domingo IV do Tempo Comum – ano C

 

Na Oração Colecta deste Domingo, pedimos ao Senhor que “O adoremos de todo o coração e amemos todos os homens com sincera caridade”. Este pedido pode ajudar-nos na reflexão da leitura do evangelho deste Domingo. Para adorar o Senhor com todo o coração, temos de conhecer e de saber qual é a sua vontade. O texto do evangelho deste Domingo retoma o último versículo do Domingo anterior para continuar com a narração da sinagoga de Nazaré. Recordemos que o final do evangelho do Domingo passado deixava-nos com uma grande expectativa. Jesus tinha proclamado entre os seus conterrâneos o texto em que Isaías profetizava sobre a vinda do Messias e, ao enrolar o livro, exclamou: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir”. Acabava de afirmar que Ele é o Messias. Todos ficaram surpreendidos com esta revelação. E, num primeiro momento, parece que até houve um certo entusiasmo perante estas palavras. O anúncio era surpreendente. O evangelista diz-nos que “todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca”. E perguntavam: “Não é este o filho de José?”. Claro que sim! Com esta admiração e com esta pergunta sentimos a realidade da Incarnação. Deus fez-se homem de uma forma natural num contexto muito concreto, com uma família, com parentes e com vizinhos. Deus actua através da normalidade da vida, apesar de sempre desejarmos ser testemunhas de acontecimentos extraordinários. De certeza que aquelas pessoas sonhavam a chegada do Messias como um acontecimento espectacular. Mas não foi assim! Deus manifesta-se no silêncio e poucos imaginavam que o Messias seria um dos seus conterrâneos. Para os habitantes de Nazaré, Jesus era o filho de José, e nada mais. Necessitavam do dom da fé para nele ver o Messias. É na vivência da fé que podemos contemplar Jesus como o nosso Salvador. Todavia, as palavras que Jesus disse depois de anunciar que era o Messias, não caíram bem naquelas pessoas. Neste momento são recordados dois momentos do Antigo Testamento, em que Elias e Eliseu defendem os estrangeiros. Assim revela que a sua missão não é somente para o povo de Israel mas também para todos os povos. Até os pagãos são chamados à salvação! Não esqueçamos que o povo de Israel considerava-se como o povo predilecto e escolhido por Deus para fazer chegar a salvação. Os outros povos ficavam à margem e excluídos deste plano salvífico divino. Por isso, é que as palavras de Jesus causaram mal-estar entre os seus conterrâneos. Depois de afirmar que é o Messias, diz-lhe que a salvação profetizada por Isaías não é só para eles, mas também para todos os povos, que os judeus consideram indignos de serem amados por Deus. Mas, não deveria ser motivo de alegria este anúncio da universalidade da salvação? O povo de Israel tinha caído na tentação do egoísmo ao acreditar que era o único onde Deus actuava. Nesta tentação todos nós podemos cair se nos convencermos que somos juízes dos outros e que somos superiores aos nossos irmãos. As palavras de Jesus fazem surgir uma reacção violenta daquelas pessoas. O texto diz-nos que “levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-no até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo”. Parece que estamos a ver uma antecipação da paixão e da morte de Jesus. Fica claro que a sua missão não será bem recebida por todos. “Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”. Ultrapassará este momento difícil como tantos outros que irá encontrar ao longo da sua vida, vencendo até o obstáculo da morte com a ressurreição. Vencidas todas as barreiras, Jesus salvou toda a humanidade e a sua mensagem ressoou por toda a terra. No início da celebração eucarística deste Domingo, pedimos a Deus que O adoremos de todo o coração e amemos todos os homens com sincera caridade. Porquê? Porque Ele amou-nos em primeiro lugar e salvou a todos, sem fazer acepção de pessoas. A nossa missão não é ser juiz sobre a vontade de Deus, mas acolhê-la para a viver e a transmitir.

 

30-01-2022

LEITURA ESPIRITUAL

«Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho»

Veio até nós um médico para nos restituir a saúde: Nosso Senhor, Jesus Cristo. Vendo a cegueira do nosso coração, prometeu-nos a luz que «os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, o coração do homem não pressentiu» (1Cor 2,9). A humildade de Jesus Cristo é o remédio para o nosso orgulho. Não duvides nunca de quem te traz a cura e sê humilde, tu por quem Deus Se fez humilde. Com efeito, Ele bem sabia que o remédio da humildade seria a tua cura, porque conhece muito bem a enfermidade e sabe como se cura. Uma vez que não podias ser tu a visitar o Médico, foi o Médico que veio visitar-te. Veio ver-te e veio em teu socorro porque sabe muito bem do que necessitas. Deus veio na sua humildade para que o homem O pudesse imitar, pois se tivesse permanecido inacessível, como poderíamos nós imitá-lo? E, sem O imitar, como poderíamos ser curados? Veio na humildade porque sabia muito bem qual o remédio que devia receitar: um pouco amargo, por certo, mas salutar. E tu? Continuas a duvidar d’Ele, de quem te oferece a sua taça, e murmuras: «Mas que Deus é este, Senhor? Nasceu, sofreu, foi coberto de escarros, coroado de espinhos, cravado numa cruz!» Miserável alma, que vês a humildade do Médico mas não o cancro do teu orgulho! E é por isso que a humildade não te agrada. Por vezes acontece aos doentes mentais baterem nos médicos; neste caso, porém, o Médico, que é misericordioso, não só não fica indignado com quem Lhe bate, como ainda cuida de o tratar. O nosso Médico não teme ser atacado por pacientes dementes. Ele fez da sua morte o remédio para eles. Com efeito, Ele morreu e ressuscitou. (Santo Agostinho, 354-430, bispo de Hipona – norte de África, doutor da Igreja, Sermão Delbeau 61, 14-18).

 

http://www.liturgia.diocesedeviseu.pt/