Confesso que é atroz acompanhar diariamente as notícias que dão conta da sobrelotação das instituições do Serviço Nacional de Saúde, ou melhor dizendo, do “serviço nacional da doença”. Infelizmente, é nela que nos concentramos todos os dias.
Mas a pessoa doente deve ser atendida de acordo com a sua vulnerabilidade e necessidade de cuidados e, acima de tudo, reconhecida como responsabilidade coletiva de uma sociedade que se deve orientar para o alívio do sofrimento. Muito preocupado com esta dimensão, São João Paulo II instituiu em 1992, o Dia Mundial do Doente (11 de fevereiro), recordando-nos que a doença não é apenas uma experiência individual, mas uma realidade que interpela famílias, profissionais, instituições e comunidades. Cuidar do doente é, em última análise, cuidar da dignidade humana.
Este ano, Sua Santidade o Papa Leão XIV propõe como eixo central a imagem do Bom Samaritano, sob o lema “A compaixão do Samaritano: amar carregando a dor do outro”. Esta expressão traduz uma visão exigente da compaixão, reconhecida na literatura científica e ética como um atributo fundamental de quem cuida. Por isso, não basta reconhecer o sofrimento: é necessário aproximar-se, comprometer-se e agir. A compaixão, nesta perspetiva, é sempre relacional e prática, traduzindo-se em gestos concretos de cuidado, presença e solidariedade.
É precisamente neste ponto que o voluntariado assume um papel estruturante na sociedade. Em contexto hospitalar ou comunitário, o voluntário representa muitas vezes a ponte entre o cuidado técnico e a dimensão humana do acompanhamento. A sua presença não substitui os profissionais, altamente qualificados, tecnicamente treinados e cientificamente preparados, complementa-os, oferecendo tempo, escuta, proximidade e continuidade relacional. O impacto do voluntariado mede-se não apenas em ações realizadas, mas também na qualidade das relações que promove e no sentido de pertença que gera.
Os dados do inquérito nacional” E se o Voluntariado acabasse amanhã?”, promovido pela Confederação Portuguesa do Voluntariado e dirigido a jovens entre os 15 e os 30 anos, ajudam a compreender melhor esta realidade. Os resultados revelam que mais de metade dos jovens inquiridos (cerca de 1900) já praticou voluntariado, sendo a maioria estudantes e mulheres. Entre os que ainda não participaram, uma percentagem significativa manifesta vontade de o fazer, mas refere desconhecimento das oportunidades existentes na sua área de residência. Este dado é particularmente relevante, pois evidencia que a falta de participação nem sempre resulta de desinteresse, mas de défices de informação e de mobilização comunitária.
O mesmo estudo mostra que as principais motivações para o voluntariado se centram no serviço ao próximo, no crescimento pessoal e na compreensão de outras realidades, valores profundamente alinhados com o conceito de compaixão. Estes jovens reconhecem, de forma implícita, que cuidar do outro é também uma via de desenvolvimento humano e social, reforçando a ideia de que o voluntariado beneficia simultaneamente quem recebe e quem oferece ajuda.
A nível local, o trabalho desenvolvido no Município de Fornos de Algodres ilustra bem como o voluntariado pode ser organizado, valorizado e integrado nas políticas sociais. Através da sua Estrutura Municipal de Voluntariado, têm sido promovidas respostas articuladas às necessidades da população, envolvendo cidadãos de diferentes idades em ações de apoio social, combate ao isolamento e promoção do bem-estar comunitário. Estas iniciativas demonstram que a participação cívica, quando devidamente estruturada, pode ter um impacto real e duradouro na qualidade de vida das pessoas.
Num tempo marcado por desafios sociais, demográficos e de saúde cada vez mais complexos, reforçar o voluntariado é investir numa sociedade mais coesa, mais solidária e mais humana. Amar carregando a dor do outro não é apenas um ideal ético ou espiritual; é uma prática quotidiana que se aprende, se exercita e se concretiza através da participação ativa de cada cidadão. Celebrar o Dia Mundial do Doente é, por isso, reafirmar que a compaixão, quando vivida em ação, transforma pessoas, instituições e comunidades.
Autor
Luís Miguel Condeço
Professor na Escola Superior de Saúde de Viseu
Magazine Serrano A Voz Serrana para o Mundo
Teve lugar, esta quinta-feira, a Sessão de Assinatura da Carta de Compromisso do projeto i3S BSE – Portugal Inovação Social, no Município de Manteigas.